A nona noite

Escrito por: por: Hans Christian Andersen

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Finalmente uma noite sem nuvens, “clara”! A lua estava em quarto-crescente! Novamente ela presenteou-me com um bom tema! Veja só o que ela contou para mim:
"Eu segui o Urso Polar e a Baleia até o leste da Groenlândia; nuvens cobriam as montanhas geladas e cercavam todo o vale. Lá salgueiros, arbustos de frutas selvagens coloriam de verde a paisagem branca; lírios perfumados contaminavam o ambiente. Minha luz era fraca, e minha fisionomia pálida, como nenúfares arrancados pelo talo, pela força da água sendo arrastados pelas ondas do mar. Agora a aurora boreal resplandecia com muita força e luz. De um aro largo e de sua circunferência saiam os raios que pareciam incendiar todo o céu. Seus raios mudavam de cor e iam do verde ao vermelho. Os moradores locais se reuniram para dançar. Mesmo acostumados aquela visão fantástica, não conseguiam desviar seu olhar daquele ponto, daquele espetáculo. De repente alguém disse:
- Deixemos que a alma da morte continue sua diversão! Dessa forma aquele povo conseguia explicar aquele espetáculo que os encantava e amedrontava. Rapidamente voltaram sua atenção para a dança e para a música.
No meio do círculo sentou-se um groenlandês, após tirar sua enorme capa de pele, tomou seu flautim e tocou uma canção que descrevia uma caçada de focas. As outras pessoas do grupo faziam o coro. Vistos de longe, com suas imensas capas de pele branca poderiam confundi-los com ursos polares.
Ao terminarem a dança, iniciaram uma espécie de julgamento de dois groenlandeses. Eles deram um passo à frente e ficaram no meio do círculo. O julgamento aconteceu por meio de música, o ofendido fez uma canção descrevendo as más ações de seu ofensor. Com a música o ofensor era ridicularizado. Enquanto isso, o homem do flautim tentava acompanhar a cantiga no mesmo compasso da dança. Na sua vez o ofensor respondeu com ironia a acusação de seu oponente. A plateia ria e depois disso vinha com o veredicto.
Ao longe a natureza participava, a sua maneira dos festejos: geleiras se derretiam, grandes blocos de gelo desciam montanha abaixo amontoando-se e rolando juntos naquela maravilhosa noite de verão na Groenlândia.
A cem passos de distância, sob uma tenda de pele jazia um homem doente. Um resto de vida continuava através de seu sangue quente, mas ele ia morrer e sabia disso. Todos sabiam disso. Assim, sua mulher havia iniciado a costura de sua mortalha de pele que iria vestir e deveria fazê-lo ainda em vida. Ela era a única que podia tocar seu corpo depois de morto, assim ela perguntou a ele:
- Onde queres ser sepultado, na terra, sob uma camada de neve? Se essa for sua vontade colocarei junto seu caiaque, suas flechas e pedirei ao sacerdote que dance sobre o seu túmulo. Ou, preferirias o mar?
-" No mar! ", ele sussurrou e assentiu com um sorriso triste. "O mar é uma tenda agradável de verão ", disse a mulher.- Há muitas focas e morsas brincando na água. Elas virão deitar a seus pés e, dessa forma, poderás caçá-las sem problema."
As crianças, com a simplicidade que lhes é peculiar, fizeram um buraco no couro da embarcação porque sabiam que, dessa forma, o corpo iria ao fundo mais rapidamente. O mesmo mar que em vida havia provido com alimento, seria seu lugar de repouso e de descanso. Sua lápide mortuária seria os icebergs, sempre em constante mudança. Essas imensas geleiras servem de abrigo para as focas e os pássaros voam a sua volta, encantados com a luz que emana de seus topos.

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