Décima segunda noite

Escrito por: Hans Christian Andersen

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"Vejam o que presenciei em Pompéia", disse a lua, "Eu estava andando pelo subúrbio, na rua chamada Via das Tumbas. Belos monumentos cercavam o local. Ali, há séculos atrás, os templos eram enfeitados com coroas de flores coloridas e alegres jovens dançavam com as irmãs de Lais. Agora aqui reina o silêncio da morte. Soldados alemães que estavam a serviço da cidade de Nápoles, policiavam o lugar, mas naquele momento jogavam cartas e dados. De repente, um grupo de turistas entrou na cidade acompanhado de um guarda; vinham para conhecer aquela cidade espetacular que havia sido retirada de seu túmulo, iluminada apenas por meus raios brilhantes. Mostrei-lhes o que eles queriam ver: os sulcus deixados pelas rodas dos carros nas ruas pavimentadas com imensas lajotas de lava, eu mostrei a eles os nomes dos moradores gravados nas portas e nas tabuletas que ainda pendiam delas; mais à frente viram pequenos jardins com suas fontes, e bacias em forma de concha. Um silêncio enorme reinava naquele local. A água não mais jorrava das fontes, não havia mais música e dança nos salões ricamente adornados, permanentemente vigiados por cães de bronzes. Aquela era a cidade da morte! Naquele ambiente do mais puro silêncio, somente um som se ouvia, o do Vesúvio trovejando seu eterno hino; assustador! Às vezes os sons ficavam mais fortes, uma nota mais vibrante na escala musical, a isso os habitantes do lugar chamavam erupção. Continuamos nossa jornada e chegamos ao Templo de Vênus, todo de mármore branco reluzindo sob os meus raios, o altar-mor podia ser visualizado logo à frente de uma imponente escadaria, via-se também salgueiros-chorões crescendo cheios de vida por entre as colunas. O ar era leve, o céu transparente e azul deixando ver ao fundo o negro e ameaçador Vesúvio de onde labaretas eram cuspidas de sua cratera, uma nuvem de fumaça cinza pairava sobre ele, lembrando um pinheiro, mas vermelho-sangue. Reinava o silêncio.
Uma grande cantora fazia parte do grupo, eu a vi sendo celebrada e aplaudida nas principais cidades da Europa. Quando o grupo se aproximou do anfiteatro buscaram imediatamente lugares nas arquibandas para sentarem-se. Logo muitos lugares foram ocupados, como já acontecera há muitos séculos atrás. O palco era o mesmo. Havia dois arcos ao fundo e paredes laterais que serviam como cenário. Os espectadores conseguiam ver o mesmo cenário de antes, esculpido e pintado pela natureza: as montanhas que separam Sorrento de Amalfi.
A cantora adentrou ao palco e começou a cantar. Quanta inspiração aquele lugar podia trazer! Ela cantava com força e vigor, lembrou-me um cavalo selvagem à galope. Sua voz era, ao mesmo tempo, suave e firme. Meus pensamento voaram para a Mãe de Jesus no Gólgota, quando aos pés da cruz olhava para o alto, testemunha que foi de tanta dor, de tanto sofrimento. A cantora conseguia dar à sua interpretação o mesmo tom do sofrimento e da dor. Ao terminar, algo se repetiu como séculos atrás; muitos aplausos que foram tomando conta do anfiteatro. ‘Que maravilha! Que talento!’ exclamaram os presentes. Três minutos depois o palco e o anfiteatro estavam vazios, nada mais havia lá nem som, nem pessoas. Não restava nada nem ninguém. Ficaram as imponentes ruínas, sem alterações, como o fizeram durante séculos e continuariam a fazer muito séculos mais. Contudo, ninguém mais se lembraria daquela cantora excepcional, do tom de sua voz, de seu sorriso, tudo faria parte do esquecimento, mesmo para mim, tudo não passaria de lembranças perdidas em um passado muito distante.

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