Décima quarta noite

Escrito por: Hans Christian Andersen

LER

A lua disse: "Há dois casebres no bosque. As portas são baixas, e as janelas são um tanto irregulares umas mais altas, outras bem rente ao chão. Perto delas crescem flores silvestres. O teto é coberto por musgos, margaridinhas e alcachofras-do-telhado. Repolhos e batatas podem ser colhidos na horta ao fundo da casa, mas além delas cresce um bonito salgueiro. Debaixo dele estava sentada uma garotinha que contemplava um velho carvalho erguido entre os dois casebres.
O tronco era velho e cheio de nós, mas entre as folhas podia ser visto um ninho de cegonha. Ela batia seu bico ruidosamente e a garotinha, ali sentada, observava a cegonha.
Aproximou-se um menino, era o irmão da garotinha. Ele sentou-se ao lado dela e perguntou:
- Observas o quê?
- Estou cuidando da cegonha – respondeu ela. – Nossos vizinho disseram que talvez hoje ela possa trazer um irmãozinho ou irmãzinha e eu estou esperando para ver.
- A cegonha não traz bebês! Você não sabe? Nossa vizinha disse o mesmo para mim, mas estava rindo. Fiquei desconfiado com sua atitude e pedi que ela jurasse por Deus que estava dizendo a verdade. Como ela não jurou, percebi que era tudo mentira. Os adultos dizem isso para evitar mais perguntas.
- Se for assim, de onde vem os bebês? – perguntou a menina.
- Eu vou lhe contar: um anjo vem do céu com o bebê debaixo de seu manto. Ninguém o pode ver. Assim, nunca sabemos quando isso acontece.
Nesse mesmo momento ouviu-se um barulho vindo das folhas do carvalho. As crianças deram-se as mãos e se entreolharam. Poderia ser o anjo trazendo o bebê. Nesse mesmo instante a vizinha abriu a porta e chamou as crianças para virem conhecer o irmãozinho trazido pela cegonha.
Os irmãos piscaram um para outro e ambos pensaram o mesmo: “ Coitada! Quer nos enganar… Mal sabe que já conhecemos toda a verdade…”

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