A sétima noite

Escrito por: Hans Christian Andersen

LER

"Ao longo da praia se estende uma floresta com carvalhos e uma outra árvore muito comum na Europa, a faia. A madeira dessas árvores tem um perfume refrescante. Durante a primavera os rouxinóis se cercam delas para entoarem seus cantos maravilhosos. Entre a floresta e o mar, esse último em constante mudança, uma rodovia foi construída. O cenário agora é outro, carruagens vão e vem num movimento frenético. Contudo, não estava interessada em carruagens. Meu olhar voltou-se para o declive das colinas popularmente conhecidas como “ túmulo de bárbaros”. Ali amoras e outras frutas silvestres cresciam entre pedras. Natureza e poesia se mesclam, tornam-se essência uma da outra. Teriam os homens uma atitude mais contemplativa diante de tal fato? Pois bem, vou contar o que ouvi lá durante toda noite. Primeiro apareceram dois agricultores ricos. "Que beleza de árvores! Disse um deles. “Imagine quanta lenha elas poderão produzir!” Disse o outro. "O inverno vai ser muito forte! No ano passado o inverno foi também bastante rigoroso e nós ganhamos R$ 1.500,00 por carga de lenha!" Um pouco mais tarde, dois outros homens passaram por ali. Um deles disse: “Como a estrada está ruim nesse ponto!” "São as malditas árvores!", respondeu seu companheiro. Elas formam um paredão impedindo que os ventos da terra cheguem até aqui. Um pouco depois uma carruagem barulhenta passou pelo mesmo caminho. Porém nenhum dos passageiros pode apreciar a beleza do lugar porque estavam todos dormindo. O cocheiro pegou sua corneta, assoprou forte e olhou para o céu. Como percebo tudo, pude ler o que ia em seus pensamentos; “como sei tocar bem! Os passageiros devem estar apreciando minha música” Em alguns minutos não se via mais a carruagem. Dois rapazes a cavalo aproximaram-se. O brilho no olhar deles fez-me ter esperança de que eles apreciariam a beleza da natureza e poderiam perceber a poesia que fazia parte do cenário. Que decepção! Logo um deles falou: “Bem que eu gostaria de passear por aqui com a filha do moleiro. A brisa do mar espalhava o perfume das flores. Mar e céu misturavam-se como se um fosse a continuidade do outro. Aproximou-se uma pequena carruagem com seis passageiros: quatro dormiam, um pensava no paletó que havia comprado, o último perguntou ao cocheiro: “há algo nesse lugar belo o bastante para ser contemplado, referia-se particularmente as pedras empilhadas?” A que o cocheiro respondeu que não, mas as árvores: ah! essas sim! “Por que?” perguntou o passageiro. Porque no inverno, quando a camada de neve esconde a estrada e não conseguimos saber onde termina a estrada e começa o mar, elas nos dão a direção. “Elas são ou não dignas de atenção? Perguntou o cocheiro.
Em seguida chega um pintor. Nada disse! Seus olhos brilhavam e ele começou a assoviar. Naquele momento, um rouxinol começou a cantar mais alto do que costumava. “Cante mais baixo!” Ao mesmo tempo, o pintor começou a organizar suas tintas para reproduzir todas as tonalidades, matizes e nuances de cores que via, especialmente azul, roxo e marrom escuro. “Pintarei um quadro belíssimo!” Pouco a pouco as cores davam forma ao quadro da paisagem que estava a sua frente, muito fielmente. Enquanto pintava, assoviava uma bela área de Rossini.
A última a chegar no local foi uma menina pobre. Ela trazia uma trouxa e a colocou no chão. Seu belo e pálido rosto revelava seu encantamento com aquele cenário. Procurava ouvir os sons vindos da floresta, do mar e do canto dos rouxinóis. Seus olhos brilhavam. De repente, ela começou a dirigir seu olhar ora para o mar, ora para o céu. Vi quando ela juntou as mãos em atitude de oração. Supus que ela rezava o Pai Nosso. Seus sentimentos eram confusos. Ela não conseguia perceber claramente o ambiente a sua volta, contudo essas imagens jamais sairiam de suas lembranças por muitos anos. Talvez as cores percebidas por ela fossem mais fortes e mais vivas do que as registradas pelo pintor. Meus raios pousaram sobre ela e os mantive assim, até que o sol da manhã veio beijar-lhe a face.

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